A metáfora da vida, numa praia linda de acessos escondidos como os desejos do coração …
Saímos da casa grande rumo à praia, seguimos uns atrás dos outros, confiantes em quem conhece o caminho, os pés picam-se no mato e tropeçam nas pedras. Numa parcela asfaltada - percurso ilusório da modernidade fácil - os perigos continuam, carros apressados buscam praias organizadas e perfeitas, para parecerem perfeitos também. Em frente, à esquerda, e outra vez à esquerda, numa estrada de terra de pó tão fino que as folhas e ramos parecem arranjos de Natal, pulverizados de spray prateado. Uma curva aqui, uma subida acolá, olhamos curiosos para as casas magníficas, vislumbramos condomínios incríveis e antevemos praias simpáticas. Seguimos o objectivo, mesmo sem o conhecer. Mais uma curva e lá está a bela praia, paradisíaca, secreta, e acende nosso desejo.
Do alto da falésia,
sorrimos encantados, nós vamos àquela praia! Como? nosso desejo não sabe como, mas quer e vai. O acesso único é por um barranco íngreme.
Sem hesitar, excitados pela visão do objectivo, começamos a descida escorregadia por tanta terra seca, e nos obriga a ter muita atenção aos
detalhes, a baixar o olhar. Por breves momentos esquecemos o objectivo maior e
colocamos toda a atenção nos contornos traiçoeiros das pedras soltas. De
cabeças baixas, silenciosos, as mãos tacteiam os arbustos e as pedras firmes,
mal nos recordamos porque estamos ali, ofegantes, carregados de tralhas que no
momento parecem excessivas, somente nos interessa evitar resvalar. No meio do caminho estamos tão embrenhados nos pequenos detalhes que somos
surpreendidos com uma vista parcial da praia e retemos a
respiração: nosso objectivo cresce e aparece, imenso, lindo, preenchendo o
peito e num suspiro vaidoso esquecemos totalmente as caminhadas passadas.
Os olhos embevecidos pela paisagem atrasam
os pés, que hesitantes, descuidam dos detalhes e continuamos a contornar o
barranco num zig zag que ilude a descida íngreme - estamos quase lá!. Falta um metro ilusório e, sem darmos conta ficamos parados diante da
praia, do mar límpido, do sol quente. Outra ilusão, o objectivo só
aparentemente está ao alcance, temos de retroceder. Dar as costas ao desejo, a
custo e entre passadas irregulares lá atravessamos os sete metros reais de
costas voltadas mas com o objectivo em mente. O primeiro impacto quando tocamos a areia
é intimador, as paredes das falésias quase se fecham num pequeno espaço,
sentimo-nos pequenos. A nossa mente esquece tudo e só quer o mar e a
serenidade daquela pequena praia desconhecida da multidão de Agosto.
Na praia, descalços, sentimos a areia macia depois da rigidez da escarpa! O olhar rápido escolhe o melhor local e num ápice estamos
de toalhas estendidas e sorrisos de poder. Neste dia o mar está revolto mas não
assusta ninguém, pelo contrário atrai, as ondas estão como cabelo carapinha,
cheias de raminhos de algas, que dançam e se entrelaçam em contraposição de
forças. Cada um de nós, à sua maneira, absorve a força desta praia quase
secreta. Atingimos o objectivo porque ultrapassamos as dificuldades do
barranco. A natureza dá-nos uma lição de vida: se formos persistentes nas
agruras da vida chegaremos aonde quisermos!
Eu também estendo a toalha, olho ao redor - primeiro dia de praia no Algarve! - o corpo quente do esforço da escarpa sente um certo pudor ao tirar a roupa, sorrio pois a sensação é boa e interrogo-me se terei medo desse mar de ondas pequenas mas fortes. Devagarinho molho os pés, o mar oferece um leve frescor no meu corpo, ainda tenso da caminhada, e num acordo suave, meu corpo, entra no mar de mansinho e ajoelha-se num longo suspiro. Uma inspiração profunda - que sai do meu coração através do olhar, vai até à linha do horizonte, desliza pelo Céu até ao Sol e - retorna na expiração forçada. Coordeno a respiração com o gesto de elevação dos braços e com as mãos em concha elevo o Mar até ao Céu. Refresco o Ar e o Sol devolve-me esse mar em gotas transformadas em diamantes que caem sobre meus olhos arregalados e no meu peito aberto. Movimento rotativo, de baixo para cima, de trás para a frente, numa roda da vida, molhada, abençoada. Sentada nos calcanhares, elevo-me ao sabor das ondas fortes. Rodo os braços, recebo os diamantes e sinto o Amor de Deus, a fluidez da Deusa Mãe e agradeço esta missa de domingo, na praia das Fontainhas!
Algumas ondas mais fortes obrigam-me a cair, a deslizar para dentro do mar ou na direcção da praia, não sinto medo, cada tombo faz-me rir como uma criança feliz, o mar tem sabor de sal na boca e de mel no coração. De pé, com as ondas a fazer meu corpo ondular, abro os braços como uma hélice, brinco, rodo meu corpo como um parafuso, e deixo o Ar entrar no Mar, o Sol entrar no Mar e o Mar subir ao Sol e este excitado, retribui em gotas brilhantes como diamantes!… A festa do riso e das gotas no ar junta os amigos e transforma o banho em comunhão. O Sol, o Ar, o Mar e nós, rindo, rindo, numa dança molhada e feliz…uma comunhão tão intensa que num dos tombos minha mão encontra um prenda, uma pedra feminina com um fóssil em forma de mão - uma mão encontra a minha mão! - obrigada Mar, obrigada Vida!
Na catedral das Fontainhas, vivi uma missa de domingo !!!!! e voltei mais fresca! :)


